‘Mas louco é quem me diz…’

Tá né que louco tem em todo lugar. Mas hei de cruzar com tanto birutinhas quanto cruzo no transporte público de Hamburg.

Não to falando de pessoas revoltadas com a sociedade, da juventude rebelde, de pessoas que falam alto no celular ou estouram o volume de seus fones de ouvido (pelas barbas do profeta alemão, isso é inaceitável).

Estou falando de pessoas tãn-tãns mesmo. Que falta, na psique, uns parafusos.

Verão passado estava eu sentada no fundo do S-Bahn (trem) indo trabalhar. Era um dia lindo de sol e mesmo lotado, o trem estava naquele silêncio digno de… S-Bahn lotado. Bem, no meu lado tinha um senhor com um baú de madeira no colo. No outro lado, uma patricinha dedilhando no seu iPhone. De repente escuto uma gargalhada bem alta, bem gostosa, vindo do outro lado do vagão. Tudo bem, que bom que há pessoas felizes e contentes a essa hora da manhã. Três minutos depois, a mesma gargalhada. E um monólogo que não consegui identificar o que era e da onde vinha, mas a voz era a mesma. Tirando esta voz, o silêncio era matador no trem. E essa gargalhada (alta, bem alta, tipo do Mau do filme Xuxa contra o Baixo-Astral, saca?) se repetia a cada três minutos e ela estava se aproximando. Eu não conseguia ver nada. Até que chegou perto.

Era um homem, cerca de 35 anos. Alto, bem alto. Com roupas esportivas e com aquele óculos meio assim, sabe? Eu dei um sorrisinho pensando que era algum ator, pois as vezes tem até música ao vivo nos trens… mas que caloura eu. Ninguém olhava pra ele. Ele falava muito e eu não entendia necas. Pois bem. Ele chegou na minha frente e eu comecei a captar o perigo por causa do ambiente pesado. Ele apontou pro cara do meu lado, gritando diversas vezes que ele e sua caixa de madeira eram pagãos e deveriam ir pro inferno (foi a única coisa que captei). Olhei pro lado, o cara estava virado pra janela fingindo estar dormindo. A menina do outro lado continuou firme e forte no seu iPhone. Numa velocidade de lebre, abri minha bolsa e catei a primeira coisa (cruzadinhas da Coquetel) que encostei pra me parecer ocupada. Se eu estivesse ‘a toa’, ele apontaria pra mim e gritaria também.

Na próxima estação, ele desceu. E o silêncio pleno voltou ao trem. Eu vi esse homem umas 3 vezes, e dessas outras duas vezes ele só gargalhava. Daquelas de faltar o fôlego e querer saber o que ele viu para gargalhar junto. A última vez que o vi foi, acho, que setembro do ano passado.

Outra vez estava no ônibus com o Herr. Entrou um grupo de 4 pessoas que não pareciam normais. Todos eram adultos e portadores de alguma doença ou síndrome. Eu não os vi direito (não joguei meus olhares de laser observadores pra não fazer feio) mas era um grupo de amigos, visivelmente independentes, bem felizes mesmo, conversando alto. Sentaram atrás de nós. Eles falavam alto, mas eu também não captava a língua. Todo mundo do ônibus ria junto com eles, talvez porque faziam piadinhas. Ao sair do ònibus, Herr disse que a moça com Síndrome de Down estava se despindo, falando sacanagens e queria que o colega dela a tocasse. Isso tudo atrás de mim.

Mês passado quando eu estava no U-Bahn (metrô) olhando pro além do túnel e ouvindo música no fone de ouvido (baixinho né?). Então a bateria acabou e eu tirei o fone. Nos bancos ao meu lado, tinha um rapaz de uns 20 anos sentado na frente de uma senhora, de uns 50. Ele lia um jornal e ela falava com ele normalmente, e ele quieto folheando o jornal (captei na metade, pois eu estava ouvindo música e nem os vi antes). Ele tinha em seu colo um par de luvas de lã, bem velhas e com o dedão furado. Ela falou: “olha querido, você tem que mandar arrumar, olha como tá desfiado!” Então ele pegou a luva (antes mesmo que ela encostasse), puto da vida, olhou pra ela e disse em alto volume: A senhora é louca! E deixou o trem. E quando ele saiu, ela começou a se se inclinar pra cima da moça ao lado dela,  pra ler o livro que ela lia. E eu? Me fiz de paisagem, claro.

Pensei que estava marota no assunto, até segunda-feira.

Eu estava no U-Bahn, voltando do trabalho, bem cansada. E quanto to cansada no metrô, o tempo passa rápido (pensar na morte da bezerra e afins). Estava perto do ponto final e o vagão estava quase vazio (eu diria, umas 5 pessoas) e eu sentava no fundo, de costas pro resto do vagão. Perto de mim, no teto, tinha um mapa das linhas de trem e metrô. Alguém parou ali, quase atrás de mim, e estava lendo os nomes de algumas estações, como se fosse turista ou sei lá.

Okay. Sem que eu pudesse captar o lelé em questão e pensar em pegar o telefone pra ficar jogando minhoquinha, ou pegar qualquer recibo de compra pra ler (eu já acabei as palavras-cruzadas) este garoto, de uns 15 anos senta na minha frente. Na minha frente assim, joelho com joelho. Lembrando que o trem estava quase vazio. Ele tinha um sorriso imenso, pele morena, olhos jabuticaba brilhantes. Dei um sorriso de volta (porque sou bacana né?) e então ele começou a puxar papo. Do tipo, “você vai descer na próxima estação? Bonito esmalte (ai, eu sei :x)! Você é casada? Eu gosto da cor verde. Tipo assim do estofado da poltrona do trem. Você quer um chiclete? (Olha, o Forrest Gump pelo menos oferecia bombom) Qual seu nome? O que é isso? (apontando pros bottons de bandeiras de países na minha bolsa)”.

O grande detalhe é que ele não respirava entre as perguntas. Era direto, pa-pa-pa. Talvez ele não esperava por respostas mesmo. Eu não tinha o que fazer, pois eu estava no fim do vagão, sem tv na minha frente, sem propaganda pra ler, sem paisagem no túnel, sem palavras cruzadas. Fiz cara de paisagem anyway e rezei pro tempo triplicar sua velocidade. Ele então estendeu a mão para mim, eu “me apertei lá embaixo” (hehe) e saí correndo, e pela graça do Universo, era minha estação.

E eles são assim, felizes, quebram o silêncio e seriedade do povo alemão, trazendo para nossa rotina um pouco de… originalidade. São livres, perambulam por aí, sem responsável, talvez sem destino e dizem que são inofencivos. Os alemães pelo jeito se acostumaram com eles, eu de certa forma também.

Mas eu tenho um medo do cacete!!!!

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7 respostas para ‘Mas louco é quem me diz…’

  1. Ernani disse:

    Hahaha… Rolou até paquera no final, é? Adorei as histórias, mas gostei mais dos detalhes. O exemplo dos óculos do primeiro louco e a risada do filme da Xuxa foram de chorar… como é que vc lembra disso? bj

  2. Coca disse:

    Medo do cacete não combina para quem veio da Rua José Koeber,com apenas 15 casas, e um Eduardo mão de Tesoura,(não é com vc cabelo…),
    o véio doido,,a menina que quando você bate na campainha ela abre a janelinha da porta e tasca um cuspe,e outras coisitchas impublicáveis….Esses alemães aí,são mais divertidos….
    Precisa ter medo não, qualquer problema exportamos um dos nossos para te defender aí ahahaheheheheh.

  3. Eve disse:

    Hahaha aquele silêncio assim… de S-Bahn lotado. kkkkk
    To-da a cara da Alemanha nessa frase. kkkk
    “me apertei lá embaixo”. kkkkkkkkkkk
    Tadinho, deixou ele “voando”? rsrss Ele deve estar esperando até agora o seu aperto de mao. =P

    Bjs!

  4. cath disse:

    metro eh onde tudo rola, aki onde eu moro nao tem mas qdo eu morava em sao paulo nossa era uma atras da outra hahah aki mesmo a comedia ficana parte da manha qdo eu ando pra faculdade e encontro bebado e gente doida mesmo hahahaha E o jeito eh bem por ai o sorrisinho amarelo e sebo nas canelas ahahhaah bjuuuss

  5. Mi disse:

    eu atraio loucos! =) eles tem um amor por mim desgracado! na minha 1a semana na alemanha entrou um carinha no Tram e todo prosa foi lá pra frente do vagao: Polizei!! ele gritou. eu ja tava toda preocupada. é blitz? é assalto? vai ter tiroteio? Qdo percebi que ele tava com uma jaqueta escrito polizei, mas era umas 3 vezes menor do que deveria ser, uma pistolinha de plástico e algemas presas na calca jeans. Ninguem nem deu bola pra ele. Eu só nao ri pq o choque foi maior haha mas a partir dai, vivo vendo gente doidinha por ai. bjs!

  6. Lu disse:

    Nossaaaaa….. ri muiiiiito…. chorei…
    minha primeira experiência com o transporte público alemão, foi na semana passada…. e realmente o silêncio reina absoluto! A não ser quando alguém resolve assoar o nariz, daquela forma bem discreta que só os alemães sabem!!! hehehehehe……

    Muito legal seu blog…. beijão!

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